quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Percepções

uma pausa nos posts imagéticos rasos. cheios de fotinhos e com pouco conteúdo. mesmo que isso seja o que eu saiba fazer melhor. hehe

enfim, as diferenças culturais fazem a gente pensar um monte de coisa...deixo alguma coisa escrita aqui.

...

aqui, cada um limpa sua sujeira.

sim, tenho notado que pouca coisa se espera que seja feita pelos órgãos públicos. não que os órgãos públicos não cumpram o seu dever, porque, pelo contrário, o fazem muito bem. simplesmente, as pessoas não ficam esperando que as coisas sejam feitas pelos outros.

um exemplo é a limpeza. as ruas da cidade são extremamente limpas. mesmo depois dos festivais, as ruas estão impecáveis. e, eu juro, nunca vi um gari varrendo a rua. as pessoas simplesmente não sujam as ruas. comprovamos isso outro dia quando a bolsista mexicana deixou cair uma toalha da bici e acabou não juntando porque estava com pressa. a toalha ficou ali por dias e dias. ela esperava que alguém limpassa aquela sujeira dali já que as ruas estão sempre limpas, mas não. ninguém precisa limpar as ruas se elas não são sujas. e, por incrível que pareça, dificilmente se encontra lixeiras nas ruas. as pessoas guardam seus lixos e levam para casa. bem no estilo "cada um limpa a sua sujeira" japonês.

é uma cultura que vem desde a escola, onde os próprios alunos fazem a faxina das salas. o que em outros lugares poderia ser chamado de exploração, aqui, é uma questão de educar as pessoas a serem responsáveis pelos seus atos.

na gráfica onde trabalho, os funcionários se revezam na faxina. e uma vez por ano, eles vão todos juntos em um sábado para fazer uma geral na gráfica toda. também por essa cultura não existem empregadas domésticas por aqui. cada um limpa a sua sujeira.

outro exemplo, é a segurança. agora, em yamaguchi, há uma campanha da polícia que diz "todos juntos vamos contruir uma cidade segura". sim, diz "todos juntos". e a campanha consiste em educar as pessoas para evitar situações perigosas. ao invés de dizer "vamos prender os criminosos" ou "mais policiais nas ruas", eles estão dizendo que se a cidade está perigosa é porque o cidadão comum tem uma responsabilidade nisso. e é assim que eles combatem a criminalidade. não vou dizer que se esse método fosse implantado em outros lugares daria certo, porque depende de vários fatores entre a recepção das pessoas e os fatores causadores da criminalidade, mas que é admirável, não se pode negar.

com a cidade segura não é necessária iluminação pública. ando frenquentemente de bicicleta durante a noite e, na maioria das ruas, conto só com a lanterna da bicicleta. nunca ouvi um yamaguchicano (hshsh) reclamar que as ruas são mal iluminadas. há panfletos educando as pessoas a carregarem lanterna e andarem com material que reflete a luz dos faróis dos carros. e assim as pessoas o fazem. aliás nunca ouvi alguém reclamar do governo mas tenho visto as pessoas fazerem muitas coisas.

sobre a saúde, os japoneses vão muito pouco ao médico. sempre criticava o excesso de sofrimento que via alguns japoneses suportar antes ir há um médico no Brasil. meus próprios parentes, recorrem ao médico só em último caso. pegamos muito nos pés dos avós e achava que eles eram uns cabeças-duras. chegando aqui, vi que é todo mundo assim. e que a coisa faz sentido. não ir ao médico faz parte da cultura "cada um limpa a sua sujeira". se você fica doente, provavelmente foi porque não tomou alguma precaução, então, esforce-se ao máximo para resolver isso sozinho, responsabizando-se pelos seus atos. por isso, os japoneses recorrem ao serviço público de saúde em último caso (estariam fazendo a sociedade pagar por uma falta que eles cometeram) e fazem questão de ter uma alimentação saudável.

esse é um dos motivos que fazem do ato de suportar o sofrimento algo admirável no japão. tudo aqui é pensado no coletivo. a necessidade gerada pelo histórico de guerras fez com que a sociedade se tornasse assim. de que outra forma um país do tamanho do japão, enfrentaria um país do tamanho da china durante tanto tempo e seria uma das maiores potencias economicas depois de tao pouco tempo depois da derrota na segunda mundial?

...

mas nem tudo são flores.

é claro, que esse sofrimento tem seu lado negativo. o japão é o país com o maior índice de suicídio infantil. há umas duas semanas, saiu no noticiário que uma criança de seis anos cometeu suicídio em Fukuoka. O suicídio foi comprovado porque ele deixou uma mensagem em seu celular antes de se matar. a bolsista brasileira é colega de trabalho de uma funcionária da Jica, a agência japonesa de cooperação internacional. essa funcionária foi uma vez a áfrica e fez uma dinâmica com as crianças em que elas deveriam dizer se eram felizes em sua vida familiar. se fossem felizes deveriam erguer os braços completamente, se não, deveriam deixar os braços para baixo, valendo as posições intermediárias para as respostas intermediárias. segundo ela, neste lugar na africa, todas as crianças levantaram os braços, ao menos mais que noventa graus, dizendo que são mais felizes do que infelizes. ao aplicar a mesma dinâmica com crianças japonesas, a maioria apontou os braços para baixo.

é mais difícil para as crianças entenderem essa lógica voltada para a sociedade. já é difícil para a maioria dos adultos que conheço, imagine para uma criança, que nem tem a idéia do outro muito bem formada. e é claro, a primeira pressão vem dos pais, que na realidade, só estão repassando a pressão que sofrem constantemente.

pressão essa que faz com que deixem sempre de lado suas vontades de em prol do bem estar coletivo. e de tanto que são reprimidas estão sempre reprimindo ou outros, também em nome do coletivo. não é raro eu ouvir um sermão de alguém na rua por ter estacionado a bici 10cm fora do lugar. e ai de quem quiser responder.

como se trata de uma sociedade muito unida, eles se unem tb para recriminar alguem que faz algo errado. e por isso a hierarquia funciona tão bem. evitam se os confrontos diretos de pessoa para pessoa. estávamos falando sobre isso em uma janta com uma americana, uma japonesa que viveu nos eua, um bangladeschiano e uma mexicana. de como um superior top recrimina um funcionário comum reclamando dele para a pessoa que está logo abaixo de seu cargo. esta, por sua vez, reclama para a outra que está logo abaixo e assim por diante, até que a reclamação chega aos ouvidos de todos antes de chegar no funcionário e assim ele se encontra oprimido por todos.

sim, os japoneses evitam o confronto um contra um. como chegamos a conclusão, ao contrário dos americanos, que estão sempre querendo medir forças e eleger um looser, a sociedade japonesa está preocupada com aquilo que pode ser perigosa para ela. então, se alguém faz algo errado, todo mundo se une para punir o indivíduo. não há confronto um contra um porque, as vezes, neste tipo de confronto, a pessoa que não tem razão vence. quando um grupo se une contra um é mais difícil de isso acontecer (não que não aconteça) porque um grupo tende a defender seus interesses, e aqui, o que é bom para o grupo é o certo.

uffff. ainda tem tanta coisa a ser escrita... falar disso não tem fim.

hj fico por aqui.

e assim é.. algumas das coisas fazem do japão, o japão.

...

Achei esse vídeo sobre o Japão. Achei que cabia bem aqui.




Como tudo na internet não sei bem qual é a validade dessas informações. Mas parece bem real. infelizmente.

14 comentários:

Elvis disse...

sensacional post, lou.

Louise Kanefuku disse...

valeu, elvis. sabia que tu seria uma das excessões que passariam da segunda frase :)

Louise Kanefuku disse...

o pai me mandou por email, mas não podia deixar de publicar o melhor comentário que uma filha pode receber de um pai :)

...

"Muito bem percebido filha, já tinha observado que voce sempre tinha uma sencibilidade a mais que as pessoas, mas perceber tudo isto em apenas 3 meses é admiravel, se fosse o pai levaria no minimo 2 a 3 anos. Olha que eu modestamente observo um pouco mais que o normal.
Apenas um comentario, as crianças japonesas também possuem uma felicidade não percebidas por outras culturas mas muito profundas, quase na proporção dos motivos que levam a atos infelizes.
Enfim parabens, já valeu o estagio, basta saber como tu conseguirá utilizar os teus conhecimentos e as tuas capacidades para fazer melhor a vida das pessoas e ser feliz. Trabalhando a tua pessoa nos momentos dificeis.
Estou muito feliz e satisfeiro com a filha que a vida me deu.

Abraços pai"

aline disse...

belo texto, impossivel de ser lido pela metade.=)

fiquei emocionadissima com o comentario do teu pai, coisa linda.

assim como ele, estou muito feliz e satisfeita com a SUPER AMIGA que a vida me deu.

escreve mais, escreve mais!!!

:°°°

Clarissa T disse...

;)

Louise Kanefuku disse...

mas rendeu esse post, ein ;)

queridas. amo-as de montão.

Adriana Sugimoto disse...

Muito bom esse post!

Certamente, eu não conseguiria ficar sem ler o resto...

Quando estamos longe do nosso lugar de origem, tendemos a pensar muito nessas diferenças culturais...

Agora, me senti muito na aula da Nilda sobre cultura...hehe : )

E nós que somos meio brasileiras, meio japonesas, ficamos assim, entre todas esses conflitos culturais...

Entre o velho e o novo... entre o tradicional e moderno ou contemporâneo... enfim, entre a cultura brasileira e a japonesa...

Eu tinha fechado tudo aqui para ir tomar banho e dormir! Mas vou postar algo imediatamente no Sem Complicação sobre isso.

Beti Copetti disse...

Pois eu li o post da Adri sobre este, e também quis comentar.
Fora o lado triste da história, dá uma baita inveja de uma população assim. Aqui, onde estou em constante luta com os relaxados que vêm jogar seu lixo na praça aqui em frente, sei que EDUCAÇÃO é o que mais falta no Brasil. Mas muitos tiveram oportunidade de estudar e aí, o que falta mesmo é vergonha na cara. Neste ritmo, vai levar alguns séculos pra alcançarmos este grau de civilidade. Uma pena!
Ah, emocionante o e-mail do teu pai!

Rita Copetti de Queiroz disse...

Oioi! Como minha mãe (Beti Copetti) cheguei aqui pelo posta da Adri.

Muito bom o texto, desabafo... esses dias enquanto estavamos maravilhados com as cameras do google earth comentamos muito sobre as ruas do japão. Sobre a organização, a limpeza, as maquinas de coca-cola, os splits na calçada! Ainda fiz um cometário: "No Brasil se rouba cabos de cobre, os fios de eletricidade das ruas, imagina se aqui tivessemos splits nas calçadas, assim como no Japão, sem grade alguma... realmente estamos muito distantes desse nível cultural".

Gostei muito do post.

Åndarilho §amurai disse...

Olá!

Sou colega da Adri na Fabico, e cheguei aqui, obviamente, através do blog dela, hehehehe

Muito legal o teu blog e esse post sobre o Japão.

Abraços

Fabricio Sortica

Louise Kanefuku disse...

sejam bem vindos, leitores do sem complicacação :) que bom que vcs curtiram esse post.

Rita Copetti de Queiroz disse...

Oi Louise voltei!

Eu estou fazendo um post que vai acabar citando o teu post! Depois passa lá! www.rosaporquinho.blogspot.com

bjoca!

coisarias disse...

Lou!

mesmo lendo esse post dias atrasado acho que vale comentar...
Seria ótimo se no brasil e nos outros paises o cuidado com o todo funcionasse.
mas como nada é perfeito....
saudades!
um beijo

Nico disse...

puxa. tá animado isso aqui. fazia tempo que não entrava. Muito legal esse post antropológico. Saudações da terrinha.